domingo, 31 de agosto de 2014

toma pelo menos a coca | repost

Era uma fila de restaurante por quilo como outro qualquer. Eu e mais três amigas conversávamos animadamente e na nossa frente uma mulher e uma menininha. Saudosa da minha própria menininha pus-me a observar a interação das duas:

– Um bifinho, por favor!

E a mulher enche uma colherona de mini-empanados de frango (português para nuget) e tasca no prato da menina. “Oxe! A menina chamou ‘isso’ de bifinho, lá de onde eu venho bife é outra coisa, eu hein!”. Pensei em como era “deseducativo” chamar um troço que nem alimento é com o nome de uma comida que – de fato - existe.

Observei os dois pratos: o da mulher tinha folhas verdes variadas e arroz integral com cenouras e ervilhas. Um bife acabara de pousar no prato naquele mesmo momento. A seguir, uma porção de brócolis e couve-flor cozidos no vapor recém chegados ao prato era regados com azeite de oliva (extra virgem, dizia o rótulo!).

– Também quero couve-flor! – ouvi a voz da menina vindo mais da frente e fiquei surpresa com uma porção de batata sorriso sendo esparramadas num prato com arroz branco e empanado de frango.

– Um pouquinho de feijão, pelo menos... – já dava para ouvir uma pontinha de sentimento na voz da menina. Mas pode ter sido minha imaginação, porque a minha vontade era de chorar mesmo.

Depois de uma porção generosa de batata frita servida no lugar do feijão a dupla se dirigiu rapidamente para a balança, me deixando para trás dividida entre a vontade de mandar a mulher "pensar no que ela acabara de fazer" ou preparar um prato de comida de verdade para a menininha.

Mas decidi cuidar da minha própria vida e servir a mim mesma de couve-flor, bife e um pouquinho de feijão em homenagem à menina. Fiquei fazendo a contabilidade dos carboidratos simples e das gorduras da pior qualidade: dois tipos de batata, ambos fritos, e o empanado faziam o arroz mesmo branco morrer de vergonha.

Avistei as duas numa mesa bem no caminho para a minha e pude ver a menina com o garfo a sequestrar uma couve-flor do prato da mulher. Andando lentamente consegui ouvir o que se seguiu da tentativa de rapto.

– Come a sua comida, amor! – pede a mulher com uma doçura suficiente para saber que ali havia amor.

– Mas eu não queria batatinha... – responde cruzando os braços.

– Seu prato tá cheio de comidinha de criança, meu amor, come...

– Ah, vovó, eu não queria essa comidinha, não... – quase chorando e partindo o meu coração.

– Tá bom, toma pelo menos a coca. – resigna-se a avó com a voz entristecida.

***

Pela primeira vez na história da humanidade, as crianças com dentição completa comem algo diferente dos adultos. Agora temos linhas enormes de produtos “marketados” para criança. São produtos elaborados especialmente para encantar: personagens nas embalagens, formatos diferentes, desenhos, brindes e toda uma sofisticada linguagem verbal e não verbal especialmente criada para fisgar crianças e adultos na tese de que produtos “marketados” para criança são mais adequados para crianças do que os produtos regulares, ou que a comida de verdade.

Tenho diversas hipóteses para tentar alcançar o raciocínio de uma adulta que decide não escutar uma criança, ignorar a sua vontade e oferecer um produto de pior qualidade do o desejado: ora, a menina queria bife, feijão e couve-flor e ganhou empanado e dois tipos de batatas fritas.

A avó gosta destas tranqueiras e não pode comer por causa do colesterol e decide que a neta deve comer enquanto pode?

A avó discorda da rotina alimentar saudável “imposta” pela mãe e pelo pai e decide ser importante “dar uma folga” a tanta saúde a mostrar o "labo bom" da comida?

A avó foi levada a acreditar que existe um tipo de comida especial e boa para criança?

Eu escolhi olhar o contexto e olhar para esta adulta com mais condescendência. Prefiro acreditar que ela está imersa num sistema que nos cega, que anula a boa informação que temos (e ela tem, vide a escolha das comidas no seu próprio prato) e o bom-senso, nos fazendo chafurdar na falta de reflexão e na repetição de pensamento que temos apenas por hábito.

Acredito comprou a tese defendida pelo marketing dos produtos feitos para crianças de que a comida que ela colocou no prato da neta deveria ser diferente da comida para o adulto que ela colocou no próprio prato. Ela foi levada a acreditar que faria a sua neta feliz em poder comer coisas feitas especialmente para criança. Ela foi levada a acreditar que não havia mal maior em servir a uma criança aquele produtos. Ela fez uma conta e decidiu comprar a ilusão de estar fazendo a sua neta feliz.

***

– Mas eu não tomo coca, vovó!

***

A cena descrita acima é real. Aconteceu em meados de 2013, no restaurante que fica embaixo da marquise do Parque do Ibirapuera: eu tenho testemunhas. As companheiras do Milc que almoçaram comigo no intervalo de uma reunião sobre infância e consumo da Rebrinc. Eu escrevi este texto para o Mamatraca e foi postado em 12/5/14

terça-feira, 20 de maio de 2014

álbum da copa: colecionar ou não colecionar, eis a questão

Eis que as crianças ganharam álbuns da copa. Muitos exemplares foram distribuídos "gratuitamente" na escola *pública* onde a avó dá aula e poucos alunos quiseram. Nós também não queríamos, mas as crianças viram por acidente e se interessaram: e tivemos uma excelente oportunidade.

Por que eu não queria?

Muito simples: porque é economicamente inviável - mais de 600 figurinhas! - e é um afronte a minha ideologia - tem figurinhas patrocinadas e muito publicidade dentro daquele negócio. Sem falar que estão sendo panfletadas diretamente às crianças ao arrepio da lei e do bom-senso.

Por que foi bom eles terem ganhado por acidente?

Porque tivemos uma oportunidade ímpar de conversar e de reconhecer um potencial nos filhos que temos. Pais e avós se juntaram para trocar ideias sobre a situação.

Quer saber como foi o papo?

Para dar um tom amistoso, explicamos que eles podiam comprar figurinhas com o dinheiro deles e explicamos porque nosso dinheiro merecia outro destino.

Começamos a pensar no sentido do álbum: repensar a nossa relação com o futebol, com a copa, com o ato de colecionar figurinhas e, especialmente, no sentido de se engajar naquela coleção em particular. Falamos também no montante de dinheiro que teriam que gastar e nas coisas que podíamos comprar ou fazer se não gastássemos aquele valor.

Eles começaram a achar mal negócio aplicar as economias deles naquilo também. Disseram que na banca de revista tem outras coisas muito mais interessantes.

Concluíram eles mesmos que não tinha sentido gastarem dinheiro em figurinhas de uma coisa que eles nem curtem tanto (futebol!) - propomos colecionar outro álbum de algo que eles curtam mais, assim que eles queiram, se é que vão querer (será que estragamos as figurinhas todas e para sempre?).

Mas o que fazer com os álbuns ganhados?

Uma vez decido que não iríamos comprar figurinhas para aqueles álbuns, começamos a pensar no que fazer: tacar fogo era a minha opção, mas a proposta que saiu da cabeça das mais velha foi genial: vamos fazer figurinhas em casa para completar o álbum. Juro! E se fizerem mesmo as figurinhas (o álbum está esquecido debaixo de um banco do carro), eu posto as fotos aqui.

Quer ler mais sobre álbuns de figurinhas? 

Clica aqui ó: http://bit.ly/MilcBlog14520

sexta-feira, 28 de março de 2014

o mundo ao alcance da mão


- Alice, me dá o mundo?

Claro que daria. E ela deu.
Subiu nas pontas dos pés
Esticou bem os braços
Tirou o mundo do alto da estante

Junto com Arthur foi ver o mundo.

***

Cena real com fala espontânea que vê e ouve apenas quem está com olhos e ouvidos atentos à poesia nossa de cada dia. 

Olhos, ouvidos e coração aberto para ver, ouvir, sentir e expressar amor em forma de palavras. Grata pelos meus dois lindos filhos: ainda bem que eles nasceram.

terça-feira, 11 de março de 2014

um mês de liberdade

Hoje faz exato um mês que tomei a decisão de me libertar da terceirização quase completa do serviço doméstico. Desde que Alice nasceu, a quase nove anos, conto com uma mulher que é remunerada para cuidar da minha casa. Esta mesma mulher tem também o papel de cuidar dos meus filhos enquanto eu e meu marido trabalhamos e eles estão fora da escola.

Ao longo destes quase nove anos, foram três mulheres maravilhosas que estiveram comigo sempre em parceria, atenção, cuidado e respeito mútuo. Tenho no mais profundo do meu coração a sensação de que nunca foram exploradas ou tiveram direitos desrespeitados. Espero que elas nunca tenham se sentido assim... (suspiro)

Por mais difícil que fosse - e era! - eu procurava estabelecer uma relação isenta da subserviência típica e cheguei a dispensar pessoas que não conseguiam me chamar pelo nome, por exemplo. E é difícil especialmente porque o caldo de cultura em que esta relação é forjada é exatamente o caldo do regime escravagista, da exploração e do excesso. Dificil para patrão e muito mais difícil para empregada.

Ainda assim, sem me achar uma exploradora, nunca achei muito "correto" "dispor" de alguém para cuidar de mim e da minha sujeira. Especialmente porque as duas primeiras deixavam os filhos com parentes para estar na minha casa, cuidando dos meus filhos.

E mesmo tendo vivido uma infância sem empregadas ou babás - na casa das minhas avós e da minha mãe existiam passadeiras, lavadeiras, faxineiras, mas nunca o serviço doméstico diário - confesso que acabei me acostumando a delegar os cuidados com a limpeza, roupa, boa parte da cozinha para terceiras. Cheguei a afirmar que ficaria sem marido, mas nunca mais ficaria sem empregada tamanha a dependência que criei em relação ao serviço doméstico.

Mas nunca me acostumei a ser "servida". Meu companheiro muito menos. E aí é que ele entra: há um ano o pai está com as crianças na parte da manhã e a diferença de comportamento com a presença dele é visível. Mesmo com todo o afeto que estas mulheres dedicaram aos meus filhos - e não duvido que houve afeto! - o cuidado do pai/mãe faz imensa diferença, especialmente quando o pai em tela é um super pai: um homem que entende e respeita a infância e o ser-humano, um homem capaz de observar a relação causa-e-efeito de cada ato em relação à reação do outro, além lúdico, paciente, presente e interessado.

E foi dele a ideia de tentarmos assumir a casa como fosse possível, até para ensinar a nossos filhos como se autocuidar e cuidar do ambiente, coisas que com uma profissional do lar em casa é muito difícil de ensinar: hoje, se não arrumam o quarto, chegam da escola e encontram o quarto como deixaram. Ambos provaram ser capazes de guardar sua própria bagunça e por isso não arrumamos o quarto deles sem, pelo menos, a ajuda deles.

Acreditamos que só assim, se deparando com a própria sujeira, serão capazes de valorizar a limpeza e a organização. Acreditamos que só assim, vendo os pais lidarem com as próprias rotinas, serão capazes de se autocuidar quando forem mais velhos. Assim como eu e ele vimos nossos pais, mães e avós (no meu caso) se autocuidando e cuidando do ambiente.

Na verdade, ainda nem podemos contar vitória... Tem sido um reaprendizado também para nós, que passamos apenas dois anos dividindo o mesmo teto sem alguém que catasse nossa sujeira. Lembro do dia em que constatei às gargalhadas que o papel higiênico não saía do armário sozinho e se encaixava no suporte do banheiro. Com apenas um mês depois de uma vida, ainda estamos aprendendo estratégias mais econômicas (de tempo e energia) para fazer as coisas.

Não tem sido fácil. Neste um mês, já chamamos uma faxineira duas vezes e vamos continuar chamando. Já decidimos que queremos que nossa última profissional, que ficou mais de três anos aqui, venha de vez em quando fazer umas comidas para congelar ou ficar com as crianças em alguma situação. Ela é ótima com as crianças e ela cozinha uma comida toda trabalhada no ativismo. Conectada na web, conhece princípios do Milc, usa as dicas Crianças na Cozinha e faz receitas d'As Delícias do Dudu, além de entender e concordar com as bases da educação positiva: Bater em Criança é Covardia.

Pausa: ela chegou a me dizer que não aceitava trabalhar em nenhuma casa que usasse caldo de tablete ou molho de tetrapack! E que nunca trabalharia com pais que batessem ou ameaçasse as crianças. Despausa.

Para ter condição de fazer isso, passamos este mês inteiro olhando para a casa e vendo os excessos: posso dizer que mandei metade de cada cômodo para doação ou para o lixo. Eram roupas velhas, manchadas, pequenas estufando e estourando a gaveta. Era milhares de vasilhas de plástico sem tampa, ou tampa sem vasilhos. Eram pratos e copos descasados tomando espaço. Eram brinquedos demais tomando espaço e juntando sujeira. Eram coisa inúteis para nós e úteis para tanta gente: coisas que foram doadas. E por mais que eu tire, muito ainda tem para tirar.

Mas preciso confessar que apesar de ser desgastante (e é! e tiro o meu chapéu e me inclino diante de mulheres e homens que conseguem!) precisar chegar em casa e estender a roupa que foi lavada na máquina (sim, eu sei, classe-média sofre!), tem sido empoderador cuidar de mim mesma, da minha casa e das minhas coisas, além de pode estar ensinando isso aos meus filhos.

Só olhando para nós mesmo, e para a nossa casa, para ver que o muito que nos atrasa no caminhar é aquilo que carregamos. E cada objeto que dispenso me coloca mais perto de uma sensação de liberdade.

E finalmente uma estrofe de música teve sentido para mim:


"Meu amor, disciplina é liberdade
Compaixão é fortaleza
Ter bondade é ter coragem
Lá em casa tem um poço
mas a água é muito limpa."
Legião! Liga o som:

)

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

sobre galinha e outras drogas

Meu caçula teve contato com este entorpecente ainda no maternal. Lembro da primeira vez que vi que ele estava fazendo uso desta substância junto com os colegas. Ainda não sabia da gravidade do seu poder, mas me desagradou o fato de existirem colegas fazendo uso enquanto as cuidadoras enfiavam colheradas de comida amassada goela abaixo sem que eles percebessem.

Eu sabia muito pouco sobre a personagem. Sabendo do sucesso entre as crianças muito pequenas, dois DVDs chegaram a tocar lá em casa. No início eu achava inofensivo: músicas tradicionais e desenhos coloridos, me remetia à minha própria infância. Nada genial, mas pelo menos não me irritava, parecia ok para crianças pequenas, melhor que xoxaprabaixinhos ou patatupatate.

O que me incomodava era justamente o fato de que esta galinha fazia meu bebê - super energético - ficar ali paradinho. Mas olhei pelo lado bom: pelo menos eu poderia ir no banheiro pelo tempo que ir no banheiro leva. Me julguem!

Em poucas semanas, eu já lia algumas mães fazendo críticas contundentes, mas achava que era fanatismo e que com bom senso e boa regulação meu filho poderia continuar fazendo uso daquilo que trazia tanta "paz" para o lar. 

Mesmo assim, comecei a me mexer e escondi os DVDs no fundo da gaveta: se fosse para fazer uso de alguma entorpecente, que pelo menos fosse uma de origem canadense ou francesa ou mesmo brasileira, mas que fosse feita sob supervisão de educadores e não de publicitários (sou publicitária e sei bem do que somos capazes!).

Em pouquíssimo tempo, antes mesmo da minha conclusão sobre o custo x benefício, a galinha começou a fazer merchan de sabonete. Aí é demais! Parei com tudo: se antes eu tinha uma desconfiança, naquele momento tudo passou a ser real, era uma penosa mercenária.

Quando meu bebê esqueceu a galinácea, ela começou a licenciar deus e o diabo: quebra-cabeça, boias de braço, bonecos, etc. A regra é clara: licenciou, perdeu (meu respeito, meu dinheiro, minha audiência).

Foi neste ponto que a informação veio chegando, fomos nos observando, ficamos atentos às crianças e suas reações, fomos percebendo o tanto de equívocos, fomos cortando a tevê, as telas em geral, reduzindo, reduzindo, devagar e sempre, como todas as mudanças que se pretendem duradouras.

Preferia que meu bebê não ficasse diante de uma tela, mas se precisasse que pelo menos ficasse diante de algo menos (bem menos!) mercenário, que ficasse diante de algo menos entorpecente. Finalizei a galinha na minha casa. Como já havia finalizado uma série de turminhas, duplinhas, bandinhas...

***

Sei que muitas amigas super queridas usam o recurso das telas (com galinha ou outras drogas) para as mais diversas necessidades. Não as julgo, porque eu mesmo usei. Não as julgo, porque sei que cada mãe tem seu limite e sua possibilidade. Não as julgo, porque sei que acham que é tudo muito inofensivo.

Sei que acham que a galinha apresenta o cancioneiro popular para as crianças. Que a galinha traz consigo aquelas lembranças das cantigas de roda e muitas até acham que estar diante desta tela animada é como ouvir a mãe cantando cantigas ou rodar numa roda de mãos dadas como um dia rodaram na frente da casa da avó. A galinha fala ao coração dos com mais de 30.

Juro que compreendo muito bem como é alentador ter como aliada e cúmplice uma personagem tão encantadora para as horas de desespero :
- Só um pouquinho não faz! 
- Em longas viagens de carro não há melhor solução! 
- Para fazer comer não tem igual! 
- É o único jeito de poder o bebê trazer num restaurante!

E quando se vê, estão sem saber o que fazer quando bateria ou o 3G terminam. E quando se vê, o quartinho mais parece um parque temático. E quando se vê, a galinácea (ou outra droga) está em todas as fotos da criança.

Peço que observem o quanto é antinatural uma criança ficar uma hora parada diante de uma tela ou de abrir a boca para comer quando a vontade é de correr. Será que não há alternativa fora das telas? Será que não existem outros aliados, outros cúmplices?

Peço que avaliem também a história da personagem e dos seus criadores: de um projeto rejeitado para o um bilhão de acessos. Avaliem a maneira como eles tratam a infância. Este é um print do Canal do YouTube em comemoração ao primeiro bilhão de acesso (veja bem: BI-LHÃO!),



Isso é jeito de se referir à crianças: eles só querem que fiquem quietas, se eles pudessem mandavam um rivo**il on line. 

E nós? Nós validamos isso? Nós achamos que as crianças (os bebês) se beneficiam estando quietos? Como é a infância que desejamos para os nossos filhos? 

***

Eu sei que há quem faça um uso regulado, com boas doses de bom senso para permitir a galinha e a infância, mas pouco importa se uma, duas ou meia dúzias de mães façam um uso regulado e pouco prejudicial desta série de animações, a galinha continua sendo um produto marketado para manter as crianças quietas e deixar os pais em paz sem sentimento de culpa (porque elas parecem estar bem e o conteúdo parece inofensivo), além de, a reboque, vender produtos e mais produtos licenciados. É um produto marketado para os pais: ponto!

Existem pessoas que fazem uso regulado e pouco prejudicial de álcool, mas ele continua sendo uma droga marketada para o consumo abusivo. Sim, quanto mais se toma, mais se lucra: aquele "beba com moderação" eles só colocam porque são obrigados.

O que importa - na minha leitura de mundo - é como os criadores da galinha pintadinhas estão marketando o seu produto. O que eles estão dizendo por meio desta singela frase é que eles criam o vídeo para paralisar as crianças e é exatamente isso o que a maioria das mães quer que o vídeo faça. 

Se a maioria não usasse para paralisar, eles colocariam algo como:
"Parabéns, Galinha Pintadinha por:
- animar as crianças que cantam e dançam ao som das nossas músicas
- divertir as crianças
- ensinar às crianças o cancioneiro popular
- manter as crianças expatriadas em contato com a língua portuguesa
- mil outras opções menos explícitas que celebrasse algum benefício para criança: ficar quietinha pe benefício para o adulto."

O que eu estou fazendo aqui não é analisando a qualidade técnica e pedagógica da produção, mas constando como certos produtos são marketados:
- a galinha pintadinha é marketada para atender uma DEMANDA DOS PAIS: um produto que remete à nossa própria infância e paralisa as crianças diante de uma tela.

Agora, se seu filho está fazendo um uso regulado desta droga (ou de qualquer outra que vem em tela), vá em frente, só não esqueça que É droga: ele pode até dançar e cantar, ele pode até não ficar paralisado, ele pode até só aguentar 30 minutos, ele pode até não estar viciado, ele pode até (comer)(andar de carro) (viajar de avião) (deixar vc ir no banheiro em paz)(aguardar o pediatra) (deixar vc temperar o frango) sem a galinha, mas ainda assim é uma droga!

(*) texto editado a partir de comentários na página do MILC
(**) este texto contém ironia e sarcasmo