quarta-feira, 23 de março de 2011

minha ação por uma infância sem o racismo

Como eu já disse aqui, venho de uma família tipicamente brasileira: genes de muitos povos correm em minhas veias. Casei-me com um homem rico em diversidade, com grande herança indígena. Minha filha mais velha herdou pelos dois lados o gene da morenice e de lindos cabelos cacheados.

Isso me rende uns episódios de ignorância e alguns sinais de racismo: desconhecidos observam sua beleza, seus lindos cachos e daí perguntam se o pai é beeeeem moreno, ou se é mesmo minha filha, sempre na frente dela. Ela me questionou e eu dei mais ênfase aos cachos do seu cabelo do que a cor da sua pele. Depois explico melhor porquê.

Como eu já disse convivi com primas e tias que não aceitavam os seus cachos e passavam os dias a buscar métodos milagrosos para alisar seus cabelos. Nunca nenhuma delas se assumiu como negra. Faltava discussão e faltava consciência.

Diante desta experiência, jamais admiti que falassem do cabelo de Alice como feio. Quando corto peço para que a cabeleleira repique bem para deixar com muito volume e com muitos cachos. Daí sempre ouço 'você é a primeira mãe que pede isso'. Alice ama seus cachos e nunca NUNCA pediu que alisássemos (diferente de algumas coleguinhas dela).

Às vezes acho que aqui na Bahia a "espécie" de cabelo é mais determinante no preconceito que a cor da pele, além de alguns outros fatores que não sei explicar bem.

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Superada a questão do cabelo, vamos para a cor da pele:

Aqui na Bahia, temos muita dificuldade com esta questão de preto e branco. A paleta de cor de pele aqui é realmente muito rica e esta identificação de quem podemos considerar negro é muito complexa. A cor de pele é só um detalhe e outros fatores entram na determinação, então quando afirmo que minha filha é negra, muitos negros e muitos brancos se ofendem. Acho que a máxima da auto-declaração vale: você é o que acha que é e ponto final. E, como a religião, é ela quem vai decidir de que cor ela é. Por enquanto ela diz que é morena, ou que é a pretinha da mamãe.

Além disso pouca gente se auto-declara branco, mesmo os mais branquelos - da mesma forma que ninguém se auto-declara rico - como se fosse sinal de arrogância dizer 'eu sou branco', 'eu sou rico'.  Sei lá...

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Ontem mesmo Alice estava pintando um livro destes de colorir e soltou: 'mamãe, quando eu não acho o lápis cor de pele, eu uso o laranja ou o marrom, e fica ótimo!' Ela está falando daquele rosinha claro, imagine! Com esta discussão palpitando e vendo esta história virar um post, pensei: 'pele de quem cara pálida?' Solto rindo: pode usar a cor que quiser, porque tem humano de todas as cores: laranja, marrom, beje, preto, azul e até verde. seu pai tá meio verde porque não está tomando sol.' E ela responde: 'até roxo: o humano fica roxo quando sente raiva!'

Aí passei para a parte séria da conversa e expliquei que o lápis cor de pele era na verdade um rosinha claro, mas que pele mesmo tinha de toda cor e ela podia usar todos os lápis que quisesse para pintar humanos, especialmente os tons de marrom, do mais claro ao mais escuro'.

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Alice é uma menina que não se refere ninguém pelas características físicas: não vai descrever ninguém por gordo, magro, alto, baixo, moreno, negro ou branco. Ela no máximo fala sobre o cabelo: usa a cor, comprimento e a textura. Mas o forte mesmo é referir a algo que a pessoa fez. Quando pergunto como é a pessoa, ela sempre solta um 'é legal!', 'é engraçada!' ou 'é chata!'... Gosto disso!

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Um outro tipo de preconceito: outro dia fui buscar Alice no balé, e ela chegou com uma novidade: não queria mais fazer balé porque uma menina nova entrou. Perguntei se a menina era tão chata assim e ela me disse na lata que ela tinha um problema na perna e só tinha três dedos no pé (já tinha visto a colega que tem um problema visível de formação de uma das pernas). Fiquei passada e se tivesse um buraco me enfiaria dentro. Da onde aquilo teria saído. Vi o filme da minha vida procurando onde errei. Na escola dela tem crianças com a situação muito pior, crianças que ela brinca, que ela gosta. Soltei um 'depois a gente conversa' e entrei no carro.

Eis a conversa que nos permitiu refletir e avançar nos pensamentos e atitudes:
- Ela é diferente, mamãe!
- Em quê?
- Ela tem uma perna dodói.
- E o quê mais?
- Ela só tem três dedos no pé...
- Oh, filha, ela tem cabeça? dois olhos? duas orelhas? cabelo? boca? orelha? barriga? solta pum? faz xixi? conversa? sorri? gargalha?
- Sim sim sim sim sim sim sim sim...
- Então ela tem mais coisa igual a você do que diferente, perceba! E mais importante: tem uma coisa que vocês duas são iguaizinhas: vocês são crianças humanas! Quero que você converse mais com ela e procure ver se ela é legal, antes de tomar esta decisão de sair do balé.

Passada uma semana:
- Mamãe, conversei com a menina.
- E então? Ela é legal?
- É sim. Muito. Ela é muito esperta! Muito inteligente! Ela nasceu assim, mas vai fazer uma cirurgia, blá, blá, blá...
Papo normal. Nem pensar em sair do balé...

Na outra semana:
- Lembra da menina que eu não gostava por causa da perna?
- Lembro.
- Ela estava tomando água no bebedouro, daí fulano e sicrano ficaram rindo dela, dizendo que ela só tem três dedos.
- E ela viu, filha? Ela ficou chateada? E você achou o quê disso? O que fez?
- Viu e ficou muito triste mesmo. Eu fiquei muito chateada e reclamei com eles dois.Disse que era feio e bobo ficar chateando a colega. Falei que ela tem os dedos diferentes, mas é igual a todas as outras crianças no que mais importa. Falei com e pró e conversamos na roda.
- E pró disse o quê?
- Que eles não podem fazer isso (e fez todo o discurso de igualdade e inclusão de excelente qualidade típico da escola).

O curioso é que quando conversei com minha sogra, ela já sabia da existência da menina e disse que Alice estava amarradona na história dela, dizendo que ela é muito legal e tal. Este papo vó e neta foi dois dias antes do meu primeiro papo. Isso me faz crer que o discurso de outras pessoas acabaram influenciando seus conceitos, algo tão negativo não se constrói e destrói assim. Foi muito fácil convencer da igualdade, fácil demais - a semente já estava lá dentro. Alice é super acostumada a lidar com diferenças neste nível porque convive desde pequena em escola de inclusão.

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Esta aliás, foi a mesmo abordagem que usei quando ela começou a reclamar do menino novo da sala: 'converse com ele, brinque com ele, conheça ele melhor - não dá para dizer que uma pessoa é chata sem conhecer... ele está chegando, deve estar se sentindo sozinho, deve estar querendo um pouco de atenção...'
Hoje todos o adoram. Este menino é branco, tem a mesmo idade da turma e não tem qualquer 'diferença visível'. As crianças podem ser cruéis e foram!

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Por enquanto tenho tido pouca dificuldade (saias justas) com esta questão do racismo. Além de ser uma prática muito sutil, aqui as pessoas 'embranquecem' quando vão subindo na escala de poder. De modo que, apesar de estarmos numa cidade de maioria negra, vemos poucos negros ocupando espaços de poder. Isso é muito sério!

Sei que esta distribuição desigual de poder ficará clara para meus filhos com o tempo, aí corremos o risco de vê-los separando um espaço para o branco (posições de destaques e profissões valorizadas) e outro espaço para o negro (espaços subalternos, profissão de pouca qualificação e mal remuneradas). Um equívoco!

Tenho medo genuíno que eles apreendam estes PREconceitos, estranhem um negro num espaço 'de branco' e acabem reproduzindo discursos ignorantes e racistas. Tipo aquele que afirma que a pessoa negra que acompanha um bebê branco é sempre a babá (tão comum em famílias multirraciais).

Fico a desejar as perguntas, porque elas suscitam respostas, debates, reflexões e mudanças de conceitos (oxalá!). O problema é o que fica subentendido: por que nas sinaleiras só tem crianças negras? Por que todas as nossas empregadas são negras? Assim como porteiros, zeladores, motoristas, catadores?

Por isso fiz a maior questão que ela acompanhasse a visita de Obama. Ela viu as meninas e mãe. Todos negros e poderosos!

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Por não ter tido uma educação voltada para isso, não é natural a forma com que lido com isso, eu sei - piso em ovos mesmo! Não tenho a indignação de quem sofreu o preconceito, de quem foi discrimado. Tenho usado a intuição e esperado horas certas para abordar alguns temas (porque para as crianças às vezes isso nem é um tema, nem tem dilema nisso).

É preciso ter paciência e sabedoria para que as emendas não saiam piores que os sonetos. Busco me policiar ao me referir às características físicas das pessoas. Intuitivamente sinto que venho dando umas bolas dentro.

Aos três anos de idade, Alice colocou na cabeça que ela queria ser branca como eu, não queria mais ser morena. Não tinha argumento racional que desse jeito: a menina chorava com um sentimento autêntico. Eu dizia que ela era bonita do jeito dela, que eu muitas vezes desejei ter a cor dela, falei sobre as limitações das pessoas brancas com o sol. Que cada pessoa é bela de um jeito único e especial e que a beleza está justamente em apreciar as possibilidades, blá, blá, blá. Mesmo assim ela chorava de lágrimas, gritos e soluços.
A racionalidade não resolveria a questão.Aí que uma fada me salvou. "Para doido, doido e meio" é meu lema. Falei: "já sei! hoje é meu an iversário e na hora de dormir eu posso fazer um pedido para as fadas! As fadas fazem qualquer coisa, não é?" Alice parou de soluçar e respondeu curiosa: "é, mamãe! o que vai pedir?" "Vou pedir às fadas para trocar a minha cor com a sua." "sim, sim, sim! vamos pedir às fadas!"
Enxugou as lágrimas, sorriu, saltou do carro, curtimos meu aniversário numa pizzaria e nunca mais falamos do assunto (nunca mais: nem na hora de dormir e nem no outro dia quando acordamos da mesma cor).  texto publicado aqui
Se fiz certo eu não sei, se isso reforça o preconceito não sei. A solução não veio da ênfase à aceitação, mas na transcedência, no impossível. Penso que a mensagem foi que eu ficaria feliz com a cor dela, que eu adoraria...

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E aí mais alguma dica? Mais alguma história? Cometi algum erro, movimento?

11 viciados comentaram, comente também:

Grace disse...

Nossa, Mari, como vc é ótima para falar sobre o assunto com sua filha...admiro a sua simplicidade, clareza...minha cunhada é dessas negras que acompanham um bebê branco (o pai é norueguês) e ela desce mesmo do salto (salto chique, diga-se de passagem) qdo perguntam se a Alicia é dela. vOU PEDIR AUTORIZAÇÃO PARA POSTAR UMA FOTO DAS DUAS NA BLOGAGEM COLETIVA!!
uM BEIJÃO, FLOR, E MAIS UMA VEZ, MEUS PARABÉNS

márcia disse...

Mari, essa sua Alice é mesmo uma fofa =^.^=
muito legal seu diálogo e sua espontaneidade em tratar desses temas tão delicados com ela. o caminho é esse.

esses tempos a minha filha me surpreendeu trazendo uma coleguinha negra pela mão e fez questão de me dizer: -olha mãe, que linda!

fruto de uma brincadeira de mostrar diferentes raças na internet, só. mas peguei o gancho num dos episódios da Vila Sesamo que tava falando das diferentes cores de pele.

mas, nada melhor que o exemplo. se você não discrimina e aceita as diferenças ela seguirá com você. mesmo recebendo inforamções distorcidas de outras pessoas. a sua influência e a de seu marido são as mais importantes.

beijins

Line Sena disse...

Oi Mari, tudo bem?
Conheci seu blog ontem e adorei, ja linkei no meu bloguezinho! :D

Gostaria de te convidar para uma participação especial no meu blog, respondendo uma entrevista sobre sua relação com a maternidade.

Meu e-mail é mamae_moderna@yahoo.com.br
Se quiser participar, me envie seu email para que eu possa te enviar as perguntas!

Bjocas!
Line Sena
http://mamae-moderna.blogspot.com/

Lia disse...

Essa história dos lápis de cor me lembrou do desenho do Doug (onde as crianças são multicoloridas, verdes, roxas, amarelas...). Nunca tinha pensando na tal "cor da pele".
Excelente post.

Ilana disse...

Mari, estou acompanhando essa sua série de posts sem comentar, mas aqui preciso dizer que fiquei deslumbrada com a sensibilidade com a qual vc trata temas tão complexos com a Alice. Quisera eu ter um pouquinho dessa sensibilidade e dessa capacidade de reflexão sua.
Parabéns (e pelos outros textos da série também)!
Beijos

MÃE DO GUI disse...

vc escreve super bem, conversa com a sua filha super bem...Ai ai, qnd crescer uero ser iguala vc, rsrsrsr!!!!

bjo

Diário de uma Mãe disse...

Achei seu blog clicando em favoritos de outros blogs e amei o seu texto, vou te seguir para continuar lendo...
bjs!

Ivana (Coisa de mãe) disse...

Mari, você conseguiu falar de um assunto tão espinhoso com tanta leveza! Me deleitei com a sua narrativa e as conversas com Alice. Vocês têm dúvidas de que estão no caminho certo? Eu não.

Lindo demais!

bjos!

Janaína Mascarenhas disse...

Amei, como sempre!

Sabe que Lipe sempre teve uma atração maior por pessoas negras?!

Super interessante o sentimento das crianças, acho que a sementinha que a gente planta, se regada continuamente, sempre dará bons frutos.

Ele, quanto à cor, sempre se intitula moreno quase preto, quando toma sol, dizemos que fica preto riscante (com muito carinho).

Beijo grande.

Sarah mãe do Bento disse...

Falei que ia voltar e ler os posts com calma, olha eu aqui!
Simplesmente AMEI a abordagem que vc teve com Alice na questão da menininha do balé. Achei super apropriada para a idade dela e coerente com os ideais de igualdade. Tanto que funcionou né! O lance dos lápis de cor também foi ótimo. Parabéns mesmo.
Sobre os cachos, esse post me fez lembrar minha sobrinha de 6 anos, com cabelinho beeem cacheado e fino, o que resulta num trabalhão para desembaraçar. Já a vi pedir à mãe para fazer chapinha (a mãe tem cabelo liso e faz chapinha de vez em quando). Realmente a cultura do cabelo liso ainda impera. Que bom que Alice tem outra concepção e que vc a incentiva a manter o cabelinho natural!!
bjos!

Lu Azevedo disse...

Muito interessantes e relevantes todos esses posts, Mari. Eu tinha feito um compromisso comigo mesma de vir aqui com mais tempo pra ler tudo e que bom que eu fiz. Realmente, o racismo pode ser descarado ou muito sutil - até mesmo na escolha dos lápis de cor, veja só! - e cabe a nós nos policiar, darmos o exemplo e conversar assim como vc faz com a Alice. Crianças são muito espontâneas, mas o racismo eu não vejo como algo natural delas - é algo aprendido, imitado. E rir e discriminar as diferenças é algo tão sem sentido e triste, que tem que ser combatido.

E viva a diferença! Variedade é vida.

Beijos,

Lu

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