Tenhos duas avós descendentes de europeus, um avô caboclo e outro mulato. Cresci rodeada de primos mestiços: uma loura de olhos verdes e uma negra de cabelhos encaracolados. Desde que me entendo por gente, morei num bairro de classe média baixa de Salvador. Tinha como melhores amigos pessoas de todas as cores, cujas famílias eram como a minha: colorida. Sou branca por acaso.
Toda esta diversidade não me garantiu estar imune ao racismo: desde os desejos por cabelos mais lisos pelas minhas primas e tias, até reprimendas do meu avô mulato por conta da escolha de namorados de pele mais escura. Aqui em Salvador, esta cidade da mistura, vivemos a ilusão que não existe racismo e por muito tempo acreditei que os preconceitos se originavam muito mais na renda do que na cor.
Isso porque é difícil saber quão moreno tem que ser um branco para ser considerado negro. E quão claro tem que ser um preto para ser considerado branco. E separar quem é preto e quem é branco nunca foi uma preocupação para mim. Afinal o racismo é uma questão muito mais complexa do que simplesmente a cor da pele.
Meus pais deram total prioridade para a minha educação formal, de modo que estudei desde os 12 anos num dos colégios mais tradicionais de Salvador. Um colégio onde os filhos de políticos, empresários, intelectuais e artistas estudavam. Tinham muita mistura também, mas poucos negros.
Convivi com todas as cores e com todas as classes sociais. A mistura pobre do meu bairro e a mistura rica da escola. Nunca percebi qualquer sinal de racismo explícito em nenhum dos ambientes. Mas ele estava ali.
***
Eu tinha 18 anos, já na faculdade, andava na rua do meu antigo colégio, quando fui roubada por uma criança negra. Ele catou minha corrente de ouro e saiu correndo. Quando me vi, já estava correndo e gritando. Eu adorava aquela corrente. Ele voltou e me devolveu.
Certamente com medo de que alguém que conseguisse pegá-lo à força o levasse para a polícia. Ele me entregou a corrente, calmamente. Perguntei pelo pingente, ele disse que tinha caído. "Onde?" perguntei e me vi lado-a-lado com aquele menino negro, franzino, procurando uma bolota de ouro na sarjeta. Quando retomamos o fôlego, desistimos.
Com a corrente entre meus dedos tremia de susto, da adrenalina, de raiva: "por que diabos este menino está aqui na rua, roubando, se arriscando a apanhar da polícia, ao invés de estar na escola? Onde estará sua mãe, sua avó*, sua família?" pensei. Eu estava com raiva, muita raiva, mas nenhuma gota desta raiva era causada por ele.
Tinha raiva de mim, dos meus, de todas as pessoas responsáveis por haver crianças na rua, de todas as autoridades, de todos os contextos históricos e sociais, dos navios negreiros, dos senhores de engenho, de qualquer um que tenha feito algo, e daqueles que nunca nada fizeram. Da minha boca só saiu: "porra, porque você fez isso?"
Ele disse que estava com fome e que pedir não estava adiantando. Pensei que realmente não adiantaria ele me pedir, desde muito cedo me recuso a dar esmola - só em situações extremas. Sem saber o que pensar, o que fazer, me vi pagando um lanche de rua para ele. E a vontade de chorar chegou incontrolável.
Enquanto esparava o suco, já com o sanduiche na mão, pela primeira vez ele me olhou e percebeu meus olhos molhados e meu queixo tremendo: "fica assim não, tia!" Sem aguentar mais, dei as costas e segui meu caminho com lágrimas no rosto, marcas de unhas no pescoço e um nó apertando a garganta.
***
Quero confessar minha dificuldade em me expressar e correr o risco de reproduzir uma fala racista. Sofro com esta possibilidade. Neste texto escrevi sobre a minha infância com ou sem racismo e no próximo post vou falar sobre as minhas dificuldades em educar para igualdade numa cidade onde existe uma maioria negra, mas que ocupa poucos espaços de poder.
(*) convocar apenas as mulheres foi proposital, uma licença irônica.
11 viciados comentaram, comente também:
Espero que gostem da minha contribuição para a blogagem coletiva "por uma infância sem racismo".
Meu post é menos "cult" e informativo que outros muito bons que eu li até agora.
Sou mãe de primeira viagem de uma menininha de apenas 5 meses e sei que aprendi mais com essa discussão do que poderei ensinar.
Mesmo assim, eu quis participar!
http://www.roteirobabybrasilia.com/2011/03/minha-acao-por-uma-infancia-sem-racismo.html
Muito legal seu relato, a maneira como vc descreveu e conduziu as coisas. É para se pensar e muito. Assunto muitíssimo delicado já que muitas pessoas são sim racsitas mas nem se dão conta.
Bjo grande!
poxa mari.
compartilho muito dessa dificuldade em expressar opinião sobre o assunto, é delicado mesmo!
gosto de dizer: me corte a pele e temos todos a mesma cor...
e de coração vivo sob esse preceito.
mas sei bem que o buraco é lááá embaixo.
bjo
Oi Mari! Muito boa essa sua idéia de postar um texto todos os dias! Parabéns!
Também estou participando da blogagem e vou linkar seus textos lá no blog, tá?
Beijos!
Nine
Mari, estou feliz por ter descoberto seu blog através da blogagem coletiva!
Adorei seu texto e mais ainda as semelhanças que encontrei nele com a minha vida!
Beijo
Oi, Mari, tudo bem? Obrigada pelo comentário fofo no blog, me ajudou muito, vou comprar o livro. Me explique melhor a coisa do berço reclinável, pq é tão importante?
bjs
Muito bom esse post....
Viu Mari já chegou um pouquinho da nossa coleção de outono/inverno. Espero que goste um super abraço da mamãe da M.C a inspiração de tudo isso.....
Se precisar de algum número diferente do que eu tenho, pode me avisar por email que faço....
Lindo o post, Mari!
Tento com todas as minhas forças ensinar o Theo a deixar o racismo pra geração anterior a dele. Ele ainda é um tiquinho de gente - 2 anos - mas acho total que temos que começar desde pequenininhos, já que é algo tão arraigado na sociedade brasileira.
bjos
Muito interessante ser uma pessoa de cor a lhe roubar, mas realmenta admirável a atitude dele em lhe devolver a peça. Ninguém entra no crime por acaso e a fome é a principal causa. Você o deu de comer ele já virou um amigo. As autoridades deveriam ler esse post!
Beijo
Adri
Mari é impossível um tema tão polêmico se esgotar num post. Até por que os próprios comentários geram mais debate. Aqui fiquei pensativa sobre o termo pessoas de cor, usado num dos comentários. No seu post me incomodou o termo mulato, altamente pejorativo a meu ver, dada a sua origem - mulas. Mas sei que a idéia não é essa! Resumindo, você arrasa em seus textos e queria ter tempo de comentar mais.
Mariana, não vejo a hora de chegar amanhã pra ler o post já que esse foi du cueiro!!!! muito bom ler sobre as questões de poder, de acesso, de grana. eu ando com muita raiva de ser branca, de ser de classe média, de ter condições, de ter educação e ainda de passar altos desafios financeiros que me deixam de mãos atadas. A gente anda mto individualista, muito umbiguista e qdo começa a enxergar o outro lado torna-se incoveniente, chata e exagerada...afffffffffffff sorry desculpe pelo desabafo, mas seu post me fez trazer á tona minhas dores...parabéns e obrigada por partilhar!
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