quinta-feira, 3 de maio de 2012

loucuras nossas de cada dia


por Andréa Rios

Do vir a ser o que não se sabe...

A questão da loucura e a discussão que envolve o tema me interessam desde a época da faculdade, desde então o assunto me mobiliza e me instiga a buscar mais informações a esse respeito. Trabalho na área da saúde mental há onze anos, seis deles dentro do antigo hospício.

Quando fiquei grávida já trabalhava lá, hoje minha filha tem dez anos e não tenho como não refletir sobre a saúde emocional dela e não trazer para o meu cotidiano familiar às diversas situações vivenciadas no meu dia a dia profissional. Por acolher diariamente o sofrimento humano, escutando as mais dolorosas histórias individuais e familiares, discutindo e propondo intervenções que promovam a saúde, inevitavelmente me reporto ao meu papel como mãe e como mulher que traz vivências emocionais carregadas das múltiplas experiências dessa jornada profissional questionadora. 

Meu campo de trabalho me propicia constantemente uma troca de sentimentos e vivências extraordinárias, já que o trabalho e o cuidado em saúde mental é uma atividade delicada e complexa, pois se trata do atendimento a subjetividade do outro. E não é esse exatamente o exercício da maternidade? Será que existe trabalho mais delicado e complexo que o de ser mãe? Nos dois casos vivencio momentos de intensa fala,escuta e catarses. 

Ouvir o outro não é uma função fácil, ainda mais quando envolve situações graves de adoecimento mental ou questionamentos de uma menininha de 10 anos. Encontrar diariamente com famílias e principalmente com mães que sofrem por acreditarem que “mimaram” demais ou que amaram de menos para justificar o transtorno do filho ou parente me faz repensar todos os dias sobre a mãe que quero ser e a que tenho sido
de fato.

Trabalhar com a loucura de cara, nua e crua me faz refletir sobre o meu ambiente familiar, o quão saudável ou adoecedor ele pode se tornar, me questionando sobre os limites na criação e conceitos como liberdade e controle me são colocados a prova no dia a dia. 

Lembro sempre dos atendimentos realizados às mães de usuários de substâncias psicoativas e lembro mais ainda de como me chamou atenção a permissividade e passividade delas em relação aos filhos e como eles controlavam a vida familiar. Lembro bem que naquele momento já pensava no que não queria ser, mas não sabia ainda como faria para garantir isso. 

Outra lembrança que me acompanha foi quando Júlia com 4 anos anos na época, caiu em casa e bateu a cabeça forte causando vômitos e confusão mental. Toda a preocupação com o acidente me remetia aos acolhimentos realizados no trabalho, quando em várias situações as pessoas referiam o início dos sintomas do transtorno a uma queda ou pancada na cabeça. 

Enfim,os medos e as inseguranças permeiam minhas ações, me fazem refletir a cada dia e a maternidade é posta a prova diariamente, mas claro buscando situações que me façam aprender e tentando esquecer outras que podem ser dolorosas, descobrindo como abordar determinado conflito, como acolher a dor, escutando o coração. Talvez, nos entender, ajude bastante a compreender o outro e acolher seu sofrimento.

Ainda na semana passada uma amiga que também trabalha na área, contava seu desespero ao abordar a filha que tinha presenciado um assalto. Ela falava exatamente do nosso medo por atender diariamente pessoas em sofrimento após um trauma. Parece que nos cobramos mais por estudarmos os conceitos da saúde mental e por estarmos envolvidas nesse cotidiano. 

Mas acredito que em nossas casas somos mães, com dúvidas e incertezas, com direito a erros e acertos e também a não saber o que fazer. Não existe receita, fórmula mágica. Existem possibilidades, que deverão ser testadas e reinventadas. Seguir alguns aprendizados das nossas mães e avós e reconstruir outros, fugindo do que é “normal” ou tradicional, só porque aprendemos assim. 

Essa trajetória não é linear e os diálogos que aqui se estabelecem não são homogêneos e requer uma disponibilidade para também se reinventar todos os dias. E a cada dia me pergunto: Onde guardo minha loucura? Como posso usá-la a meu favor? Descobrir isso me ajuda a colocá-la no lugar para conhecer e entender a loucura do outro. Mas é preciso lembrar que nem sempre teremos respostas... “O que será que me dá que me bole por dentro, será que me dá, que brota à flor da pele, será que me dá, e que me sobe às faces e me faz corar...”

Tanto no meu trabalho como na minha relação com minha filha, acredito que a melhor possibilidade está na formação e fortalecimento do vínculo. Quando você tem um vínculo, você abre possibilidades de diálogos abertos, francos e com incríveis probabilidades de saúde e crescimento. 

Penso que na minha vida profissional venho aprendendo a trabalhar num novo modelo, diferente do hospício e da prática tradicional, num projeto que valoriza o sujeito e sua autonomia. E aqui em casa, vem sendo da mesma forma, tentando romper com valores tradicionais enraizados na minha formação e criar uma filha com liberdade e autoconfiança. 

Nos dois casos, prevalece à escuta e a valorização do ser. E aí vai o recado da grande Nise da Silveira:

“Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata. Vou lhes fazer um pedido: vivam a imaginação, pois ela é a nossa realidade mais profunda. Felizmente, eu nunca convivi com pessoas muito ajuizadas.”

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Andréa Rios coordena um CAPS - Centro de Atenção Psicossocial, que funciona em um dos bairros mais populosos de Salvador. Participa desde o final dos anos 1990 da Luta Antimanicomial e coloca em práticas as teorias que consideram os pacientes mentais humanos e dignos, felizmente presentes na reforma psiquiátrica brasileira. É com muito orgulho que abrimos também esta reflexão sobre saúde mental.

8 comentários:

Priscila Nascimento disse...

Andréa, é um prazer ler seus relatos neste blog que adoro. Sei que nada tem a ver com loucura, mas o meu filho presenciou a morte da bisavó [parada cardiorespiratória] em casa e 8 dias depois ele teve um mal estar e me pedia para "massagear" seu peito [ele viu a prima fazer isso com a bisa], como os sintomas foram muitos e ele não ficava melhor levemos ao pronto socorro, lá contei tudo ao médico, ele indicou psicoterapia. Daí fiquei a pensar na possibilidade de meu filho vir a ter problemas psicoemocionais por causa deste acontecimento.  Desculpa, sei também que aqui não é um espaço para consultas, mas como mãe, pesquiso, procuro saber de outras pessoas/profissionais antes de sair correndo para um consultório. Desde já agradeço a colaboração.

bjos,
maededudu.blogspot.com

Rafaela disse...

Que presente este post! Vai encher meu dia de reflexões...
E a frase final é a resposta para muitas elas. 
Eu vivo a realidade da adoecimento mental de um outro ângulo, o da filha de uma pessoa que já sofreu muito com isso. E tenho meus muitos medos, claro. Principalmente o de reproduzir com meu filho as loucuras que eu vivi na minha infância e adolescência. 

Sempre me cobrei muita lucidez, equilíbrio, especialmente na minha recente maternidade. Mas essa busca por uma espécie de perfeição emocional pode criar um outro adoecimento, uma outra dor. Por que é impossível àquele vive não oscilar, não é?E como reconhecer no filho o que oscilação da vida e o que é sinal de dor, de adoecimento? Isso sempre me aflige. Talvez não haja resposta, mas se houver ela com certeza passa pelo vínculo, pelo amor, pela escuta e pela valorização do ser. Adorei!

Ai, como é bom começar o dia com um post bom desses.

Abraços!

Dinay disse...

Amei Andréa, como você sabe estou prestes a ser mãe também, este post com certeza me fez refletir muito mais acerca deste tema, principalmente por ter um pouco de experiência do trabalho na área de saúde mental, estes questionamentos e reflexões tornam-se inévitáveis, e necessários durante a maternidade.

Dinay disse...

Amei Andréa, como você sabe estou prestes a ser mãe também, este post com certeza me fez refletir muito mais acerca deste tema, principalmente por ter um pouco de experiência do trabalho na área de saúde mental, estes questionamentos e reflexões tornam-se inévitáveis, e necessários durante a maternidade.

Rosana Assis disse...

Muito bom o artigo... Rico em argumentos, mas sobretudo em experiência de vida, de acolhida e escuta de tantas histórias sofridas... Afinal, pouco serviria o estudo, a especialização, se não fosse a sensibilidade em ouvir, sentir, contemplar com o coração a Pessoa Humana que existe por trás de qualquer sintoma... E a capacidade de antes de qualquer coisa, perceber as "próprias loucuras" para olhar os outros com mais humanidade... Adorei!!!!!!!!!!
Este artigo me fez pensar em mim mesma, em minha vocação neste mundo, enfim... 
Obrigada, Andréa por mais esta partilha de vida!!!! Bjs!

Isabel Castelo Branco disse...

É isso aí minha amiga, adorei, é bem o que sentimos no nosso dia a dia ,toda essa vivência nos obriga as vezes cobrar,exigir ,permitir, flexibilizar e acolher as nossa pequenas com longas conversas.Minha mãe me disse uma vez...filha porque é que vc tem que explicar tudo?É não e pronto. Percebi, entaõ , que talvez estivesse no caminho certo e que hoje a demanda de fala dos filhos está muito maior e necessita sim de uma escuta.É preciso questionar o papel de mãe,que não é receita de bolo,não posso ser igual a minha mãe e nem a minha avó,pois hoje já as questiono e com certeza não posso julga-las .As crianças não são somente crianças , são sujeitos singulares que não só objetivam , mas tambem subjetivam dores  e os mais variados sentimentos.

Andrea disse...

Olá Priscila!
Entendo que seu filho está de alguma forma sinalizando algo que está incomodando -o.Conversando com colegas no trabalho,,concordamos que merece sim a avaliação de um profissional.Isso pode previnir qualquer dificuldades futuras!Me coloco a disposição para novas conversas.
Beijos,

Priscila Nascimento disse...

Muito obrigada pela atenção. Vamos conversar mais sobre o assunto, vou pegar com Mari seus contatos.

bjos!